Geografia
A Reserva Ecológica Michelin situa-se numa região conhecida como a Costa de Dendê no Baixo Sul da Bahia. Hoje, a paisagem é caracterizada por uma variedade de ecossistemas distintos que incluem Mata Atlântica costeira latifoliada, piaçava (Attalea funifera), restingas, florestas de jataipeba (Brodriguesia santosii), estuários com extensões de manguezal, mar aberto, rios, várzeas e sistemas agroflorestais diversos com mais de 60 cultivos plantados. Mais de 4.000 fragmentos de florestas permanecem nos arredores da reserva, correspondendo aproximadamente 40 mil hectares, com a maior parte dos fragmentos com menos de 30 ha e poucos acima de 500ha.
A história do uso da terra
A região tem uma longa história de assentamentos humanos e a chegada do povo Sambaqui que ocorreu há 7.000 anos. Há pouca informação sobre as subsequentes ondas de colonização humana (nenhum desses povos deixou monumentos ou relatos escritos), porém sabemos que foram caçadores-coletores. Os povos Tupi-Guarani, que migraram do norte da bacia do Rio Paraná ao longo do litoral Atlântico. Cerca de 1.500 anos antes, introduziram a agricultura na Mata Atlântica, e é provável que tenham chegado à região da reserva pelo menos há 1.000 anos. Na época da conquista Portuguesa no Século XVI, a reserva situava-se na fronteira norte do território dos Tupiniquins e os Guerens (a.k.a Aimorés, Botocudos, Engereckmung) habitavam as terras vastas de florestas além da paliçada litorânea. Enquanto podemos imaginar que os caçadores-coletores tiveram um impacto limitado na paisagem, os Tupis e agricultores, transformaram a floresta através das suas práticas agrícolas. Plantaram mandioca, milho, feijão, abóbora, pimenta, abacaxi, batata-doce, mamão, tabaco e algodão dentro de seu sistema de agricultura migratória. Como resultado, criaram um mosaico na paisagem de florestas, com áreas cultivadas e lotes agrícolas. A terra cultivada poderia ter sido extensiva devido ao fato que mandioca é cultivada apenas por uma safra (1,5 anos) e demora séculos para esse terreno tornar-se floresta madura. É provável que os Tupiniquins tenham derrubado as florestas na área da atual reserva para plantar suas culturas agrícolas, uma vez que o Rio Cachoeira Grande é um dos maiores rios da região e possui vários quilômetros de terra plana aluvial ao longo do seu curso inferior. Mesmo assim, é evidente nos primeiros relatos dos Portugueses, que a maior parte da paisagem tinha cobertura florestal depois de 500 a 1.000 anos de agricultura dos Tupis.
No fim do Século XVI, os Tupiniquins tiveram uma redução populacional devido ao período prolongado de guerra com os Portugueses e epidemias recorrentes, resultado das doenças introduzidas. Consequentemente, é provável que grande parte da terra cultivada tenha revertido para floresta. A resistência feroz dos Guerens impediu que os Portugueses penetrassem o interior, portanto, a pressão na floresta durante o início do período colonial foi limitada a uma faixa estreita de floresta no litoral. Ituberá foi fundada em 1682 como um posto avançado da missão Jesuíta baseada em Camamu. A economia era de subsistência baseada no cultivo de mandioca e extração limitada de madeira. Mesmo após a derrota final dos Guerens nos meados do Século XVIII, a região permaneceu extremamente isolada com uma população pequena e agricultura restrita às terras perto dos povoados litorâneos. Sendo assim, é provável que a floresta tenha sido pouco perturbada. Da mesma forma, enquanto os madeireiros derrubaram as árvores na região ao longo dos períodos coloniais e imperiais, eles restringiram suas operações às florestas com acesso fácil e é improvável que eles tenham explorado as florestas da reserva de uma maneira significativa. No fim do Século XVIII e início do Século XIX, as famílias dos posseiros (agricultores habitando terras inativas do governo) migraram dos povoados em direção aos morros, derrubando floresta para plantar mandioca e banana, e para criação de suínos. Algumas dessas famílias colonizaram as florestas da reserva, limpando as terras mais planas que beiravam os rios e córregos maiores e eventualmente derrubando a floresta nas encostas mais íngremes, especialmente ao longo do vale do Rio Pacangê. A densidade populacional dentro da reserva permanecia pequena durante a ocupação dos posseiros, mas eles tiveram um efeito marcante na floresta através da criação de áreas extensivas de florestas secundárias e da caça. Apesar da área permanecer sob cobertura florestal nos meados do Século XX, os posseiros conseguiram, através da atividade de caça intensiva, extinguir a anta (Tapirus terrestris), o queixada (Tayassu pecari), o tatu-canastra (Priodontes maximus) e a arara vermelha (Ara chloropterus).
Em 1950 houve a chegada de grandes investidores que pôs fim ao estilo de vida dos posseiros, comprando e confiscando as terras, e dividindo-as para plantio de cacau e seringueira. Essa nova onda de imigrantes transformou radicalmente a paisagem, aniquilando quase toda a floresta antiga e reduzindo a cobertura florestal em 50% ao longo de duas décadas. Em 1953, A Firestone comprou a terra a qual é, atualmente, a reserva (uma parte da sua propriedade de 9.000 ha) e derrubou e queimou a floresta para plantar uma monocultura de seringueira, restando apenas fragmentos de mata em locais difíceis para plantio. Metade do que hoje faz parte da reserva foi derrubada e ainda sustenta um mosaico de seringueiras, várzeas e matas ciliares compostas de vegetação pioneira. Os remanescentes foram usados como depósitos de madeira e empregaram o corte seletivo em todas as florestas para construir e manter a infraestrutura da plantação. Pacangê (que não fazia parte da propriedade da Firestone) teve vários donos que limparam o setor do sul da floresta para a criação de gado, porém a maior parte da floresta derrubada foi feita pelos posseiros no século anterior.
Houve um aumento populacional, devido chegada de imigrantes para as novas plantações, o que ocasionou a chegada de mais caçadores na região devido aos novos acessos às áreas mais remotas. Consequentemente, as populações dos animais silvestres sofreram drástica redução, como as populações de caititu (Pecari tajacu), capivaras (Hydrochoeris hydrochearis), macaco-prego-do-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos), coati (Nasua nasua), cutia (Dasyprocta leporina), jupará (Potos flavus), mutum-de-bico-vermelho (Crax blumenbachii) desaparecendo da maior parte da paisagem. Entre os anos 50 e 80, os caçadores já tinham extinguido a onça (Panthera onca) e o bugio-marrom (Alouatta guariba). Poucas espécies não foram afetadas, como o mico (Callithrix penicillata) e o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous).
A Michelin adquiriu a propriedade em 1984 e a atividade dos caçadores e madeireiros ainda estava intensa. As políticas ambientais na plantação começaram a mudar no meado dos anos 90 sob a direção de Bertrand Vignes e Bernard Francois, que supervisionaram a aquisição da floresta do Pacangê em 1999. A situação continuou a melhorar sob o sucessor deles, Lionel Barré, que organizou a legalização da reserva em 2005 e o estabelecimento do programa de pesquisa em 2006. Hoje, a reserva tem uso específico, restrito a pesquisa, educação ambiental e turismo limitado. Cinco guardas florestais patrulham a floresta e através do nosso programa de monitoramento, temos registrado um aumento de 117% na abundância de vida silvestre e o retorno das populações das espécies como o caititu, a sussuarana, o macaco-prego e o mutum-de-bico-vermelho. Os guardas têm limitado efetivamente a pressão dos caçadores nas áreas de fronteira da reserva e eliminaram o corte de madeira e da palmeira juçara.